A França enfrenta a mais grave onda de protestos dos últimos anos. O país amanheceu sob toque de recolher em bairros de Paris, Lyon e Marselha, e o governo anunciou medidas de firmeza para conter uma mobilização que já deixou mortos, milhares de detidos e prejuízos estimados em centenas de milhões de euros.

Como começou

O movimento nasceu nas escolas. No fim de setembro e ao longo de outubro, estudantes do ensino médio bloquearam colégios e atearam fogo em prédios escolares em várias cidades, em protesto contra cortes de gastos previstos no orçamento de 2027 e contra a falta de pessoal e a degradação das instalações.

O que era uma pauta estudantil ganhou adesão de professores, sindicatos, bombeiros, agricultores e do movimento dos coletes amarelos — que ficou conhecido em 2018 e 2019 pelas manifestações contra o preço dos combustíveis. A pauta se ampliou para o custo de vida e a precariedade dos serviços públicos.

O dia mais violento: 17 de outubro

No sábado (17), cerca de 550 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo o Ministério do Interior — os organizadores falam em 800 mil, sendo 110 mil apenas em Paris. Em várias cidades, a manifestação terminou em confronto, saque e incêndio.

Em Limoges, no centro-oeste do país, a prefeitura foi incendiada e ficou parcialmente destruída. Em Lyon, manifestantes incendiaram o posto de turismo. Em Marselha, um grupo invadiu o saguão da prefeitura e depredou o prédio. Em Paris, carros foram queimados e lojas saqueadas, inclusive uma boutique de luxo na região central.

Segundo o Ministério do Interior, mais de 1.800 pessoas foram detidas em todo o país. Mais de 500 policiais, gendarmes e bombeiros ficaram feridos. Um manifestante morreu em Paris após sofrer uma parada cardiorrespiratória enquanto acompanhava o cortejo autorizado. Em Saint-Étienne, um jovem perdeu a mão ao ser atingido por uma granada policial. Em Nantes, um policial de 22 anos morreu atropelado durante outra ocorrência, sem relação direta com os protestos.

A Federação do Comércio e da Distribuição estimou que cerca de 1.500 estabelecimentos foram diretamente afetados. A Câmara de Comércio da França fala em mais de 2.000 empresas atingidas e prejuízos de “centenas de milhões de euros”.

A resposta do governo

As prefeituras de Paris, Lyon e Marselha decretaram toque de recolher. Na capital, a restrição vale das 23h às 6h na Praça da República e na região comercial de Les Halles — os dois pontos que concentraram os confrontos. Em Lyon, o recolhimento no centro começa às 21h. Em Marselha, a medida atinge menores desacompanhados.

O presidente Emmanuel Macron afirmou que quem destruiu propriedade deve pagar pelo prejuízo e que os responsáveis pela violência serão responsabilizados. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou a extrema-esquerda de tentar um “plano de insurreição” e anunciou uma operação de segurança de grande escala para a manifestação convocada para o próximo sábado (24).

Nesta quinta-feira (22), o governo restringiu ainda mais o direito de manifestação: diversos atos foram proibidos em Paris e em Lyon, e o presidente declarou que apenas as manifestações organizadas por sindicatos serão autorizadas no fim de semana, com trajetos definidos para proteger comércios e prédios públicos.

O que vem pela frente

Sindicatos estudantis e grupos ligados aos coletes amarelos mantêm a convocação de uma nova jornada nacional para sábado (24). As principais centrais sindicais francesas também anunciaram greve e paralisações para 5 de novembro.

O movimento já ultrapassou as fronteiras francesas. Houve protestos e confrontos em Milão, na Itália, em Bruxelas, na Bélgica, e manifestações em Portugal e na Albânia, com pautas parecidas: custo de vida, habitação e deterioração dos serviços públicos.

Foto: Pascal Lachenaud/AFP — prédio da prefeitura de Limoges em chamas.

Fontes: DW, RFI, g1, CNN, BBC, Reuters, Al Jazeera, Agência Brasil e CBN.

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